Por:
Daniel Marcos e Mónica Fonseca
Com
este trabalho pretendemos mostrar a evolução do Nacionalismo e do Estado-Nação,
na Europa, desde o princípio do século XIX.
De facto, só a partir deste século
é que se pode falar destes dois termos. Antes do Congresso de Viena, quem
governava os países eram os reis, legitimados por Deus. Com a Revolução
Francesa e as invasões Napoleónicas, a Europa foi invadida pelas ideias
liberais e o povo foi, lentamente, tendo mais soberania.
Assim, para começo, podemos dizer que o Nacionalismo e a criação dos Estados-Nação surge com o liberalismo e com a maior tomada de consciência por parte do povo (principalmente por parte da burguesia capitalista).
É
extremamente difícil, senão impossível, encontrar uma definição para as
palavras Nacionalismo e Nação.
Ao
longo de todo o século XIX e princípios do XX foram-se fazendo teorias para
definir estes dois conceitos.
É
no seguimento destas ideias que surgem teorias tais como a de Estaline. Com esta
teoria, Estaline define Nação através de uma lista de características
objectivas: História comum, território, cultura, língua, economia, etc.
Mas
então existe alguma definição possível para Nação? Segundo Erik Hobsbawm,
podemos dizer que "Nação pode ser entendida como uma construção mental
imposta à realidade social para a estruturar e que procura agrupar elementos
igualmente heterogéneos"[2].
Segundo
esta teoria, Nação está mais relacionada com uma atitude fortalizadora e
centralizadora do poder liberal, e em particular do Estado liberal, do que
propriamente com aspectos objectivos e subjectivos tais como a língua comum e a
pré-existência de uma consciência nacional. A prova disso é que, segundo
Stuart Mill, os apoiantes do nacionalismo "desejam viver sob o mesmo
governo e que esse governo seja exclusivamente composto por eles próprios".
Atrás,
referi que a teoria de Nação fortalizava o poder liberal. Afirmei isto porque
com a derrocada do sistema social e político característico do Antigo Regime e
da tentativa de o restaurar (Restauração sob as ideias de Metternich), a ambição
pela vitória do Liberalismo, nos países europeus, veio criar no povo, uma
consciência de que poderiam passar a ter poder e de que o Estado era soberano
porque o povo lhe dava essa soberania. Logo, o Estado era legitimado pelo povo,
que o devia apoiar uma vez que ele lutava pelo Bem da Nação. Com isto, dá-se
a formação do Estado-Nação moderno. Ao Estado cabia a função de zelar pelo
bem estar da economia e da política interna e externa da Nação, sendo que o
povo era o seu legitimador (no caso da Alemanha não foi bem assim mas mais à
frente veremos o que se passou).
Desta
forma, a formação moderna da ideologia de Nação foi utilizada pelo Estado
para se assumir, na busca de uma "religião cívica" que servisse para
os povos europeus, depois do fim das épocas revolucionárias.
Com
esta assunção o Estado-Nação, como atrás afirmámos, fica obrigado a
promover o desenvolvimento da Nação e, caso necessário, numa economia
europeia que apoiava a política económica do livre-câmbio (desenvolvida pela
Grã Bretanha e que só a ela beneficia), proceder à protecção da indústria
e comércio nacional.
É
neste seguimento que a teoria economicista que vai apoiar as independências dos
Estados-Nação alemão e italiano. Um dos grandes teóricos desta teoria foi o
alemão Friedrich List que afirmava: "a tarefa da economia nacional
(=economia política) consistia em promover o desenvolvimento da Nação,
preparando-a para a entrada na sociedade universal do futuro".
Das
três teorias atrás apresentadas, a de Estaline, a de Stuart Mill e a de
Friedrich List, apenas a última era compreendida e aceitada na Europa do século
XIX, que se viu pressionada pelo aparecimento da ideologia nacionalista (apesar
de não a conseguir, sequer, definir).
Desta
última tese, universalmente aceite durante o século XIX e princípios do século
XX, derivam duas consequências: a primeira é que este princípio de
nacionalidade só se pode aplicar ás nações de uma certa grandeza. Por isso,
os teóricos do nacionalismo contemporâneos, ignoram o movimento de independização
da Irlanda; a segunda consequência é a de que a criação das nações era um
processo de expansão, que poderia implicar a aglutinação de pequenas regiões
com aspirações nacionalistas, esquecendo, assim, as suas vontades.
Mas,
independentemente de todas estas teorias que definem o nacionalismo e a Nação,
o que é um facto é que a Europa, de 1830 a 1914, foi varrida por movimentos
nacionais, uns mais bem sucedidos que os outros.
Esses
dois movimentos tiveram várias causas que os fizeram lutar pelo nacionalismo
mas, quase todos se basearam em duas fontes bastante importantes: a primeira foi
a revolução Francesa e a segunda foi o Tradicionalismo.
Como
defende René Remond, a Revolução Francesa, pelo seu efeito Universalista foi
a primeira fonte a suscitar o nacionalismo moderno, quer através das ideias que
exprimia, quer através de uma reacção contra a revolução ou contra as invasões
(Caso do nacionalismo na Confederação Alemã). Assim a Revolução Francesa
influenciou o nacionalismo de três maneiras:
A
primeira porque, ao proclamar as ideias de soberania nacional dos povos e o
direito de estes se disporem de si próprios (prolongamento da liberdade
individual) vai contra o princípio da legitimidade e da historicidade,
estandarte da teoria de poder do Antigo Regime, abrindo assim espaço a uma nova
ideologia política e social, onde o povo (em especial a burguesia, porque era a
que tinha mais poder dentro do terceiro estado) tinha direito a participar na
política.
Em
segundo lugar porque a França da Revolução tinha dado um exemplo à Europa da
sua força e da sua resistência perante a tentativa dos restantes Estados
restaurarem a ordem no país. A França assumiu-se como uma «grande Nação»,
tal como se designavam a si próprios os franceses.
É
certo que a Revolução Francesa vai ser o estandarte dos nacionalismos de
esquerda ao contrário do Tradicionalismo que vai ser defendido pela direita.
Baseando-se
no Historicismo, esta fonte do nacionalismo vai fazer ressaltar os
particularismos, na tomada de consciência nacional. Tende a acentuar as
singularidades entre os vários destinos das nações, apoiando e defendendo uma
redescoberta do passado.
Este
nacionalismo conserva ou pretende restaurar a ordem social e política do Antigo
Regime e sofre uma grande influência dos pensadores românticos. Assim, filósofos
e gramáticos estudam para reencontrar uma língua nacional original. É
seguindo esta fonte do nacionalismo que as Nações do leste da Europa,
submetidas ou ao Império Austríaco ou à Confederação Alemã, começam a
despoletar as ideias nacionalistas. Por isso, o programa do nacionalismo húngaro
ou checo reclama a restauração dos antigos reinos do final da Idade Média,
reivindicando aquilo a que chamam o antigo direito de Estado. Esta corrente
nacionalista busca a restauração das antigas tradições históricas, em
grande parte, provenientes da época medieval.
Resta-nos
dizer que a religião também teve um importante papel porque os povos ocupados
começaram a encontrar diferenças entre a sua religião e a dos povos
ocupantes. Um exemplo disso é o caso da Bélgica católica que nega manter-se
unida aos Países Baixos Calvinistas, ou como o caso das lutas entre Cristãos e
Muçulmanos nos Balcãs.
Para
finalizar esta primeira parte tentaremos fazer um ponto da situação:
A
vaga de apoiantes do nacionalismo que varreu a Europa no século XIX teve como
fonte principal a Revolução Francesa e a busca do passado tradicional das regiões
europeias.
Várias
teorias se fizeram sobre este assunto mas grande parte delas só se podem
comprovar à posteriori, ou seja,
apenas quando os Estados-Nação já estão formados.
Nesta
Segunda Parte, procuramos fazer uma abordagem cronológica e factual do
Movimento dos Nacionalismos na Europa, tendo como balizas as datas de 1830 e de
1914, para o início e o fim, respectivamente. Para tal, baseamo-nos
principalmente em Eric Hobsbawm ( Era das
Revoluções, Era do Capital e Era do
Império), em René Remond (Introdução
à História do Nosso Tempo) e em Häagen Schultze (Estado
e Nação na História da Europa).
Para mais
facilmente tratarmos este assunto decidimos adoptar a divisão cronológica de
René Remond e de Eric Hobsbawm. Assim, temos três períodos: o primeiro, de
1830 a 1848/50; o segundo, de 1850 a 1870 e, finalmente, o terceiro,
de 1870 a 1914.
Até 1830, os movimentos
nacionalistas confundiam-se com os anti-absolutistas, uma vez que lutavam contra
um inimigo comum: o Governo da Restauração que, no Congresso de Viena de 1815,
ao procurar repor a situação política e geográfica existente antes de 1789,
passa por cima das aspirações à independência e da unidade que havia levado
os povos a unirem-se contra Napoleão e a pôr-se ao lado dos seus soberanos. De
facto, a supressão tanto do sentimento nacional como dos princípios do
liberalismo (duas grandes marcas da Revolução Francesa) leva à acção
conjunta dos Movimentos Nacionalistas e dos oposicionistas à Santa Aliança.
Este duplo caracter está
patente nas Revoluções de 1830. Nos países onde triunfam (o caso da Bélgica
é inequívoco), instituem a independência e proclamam a liberdade, dotando, no
exemplo acima referido, o novo país de uma constituição liberal. Assim, até
1830, o liberalismo é a ideologia que está por detrás do fenómeno nacional.
Há,
em 1830, uma divisão do movimento geral a favor da revolução, cujo principal
resultado são os movimentos conscientemente nacionalistas. Por esta altura, os
movimentos de ‘juventude’ inundam a Europa _ «Jovem Itália, Jovem
Alemanha, Jovem Suíça, Jovem Polónia»_ todos com inspiração em Mazzini, o
ideólogo nacionalista. Estes movimentos têm apenas uma importância enquanto símbolos,
na medida em que representam a fragmentação do movimento revolucionário
europeu em sectores nacionais. Cada um destes movimentos tinha ainda a aspiração
de representar para os restantes o papel de salvador, de um messias. Aspiravam a
ter o mesmo papel que Paris teve, outrora, como inspiradora das revoluções
baseadas na Revolução Francesa. No entanto, olhar
para uma vaga ‘Itália’, uma vaga ‘Polónia’ ou ‘Alemanha’[3]
não fazia sentido a não ser para italianos, alemães ou polacos, mesmo porque
estes movimentos eram representados por conspiradores emigrados.
É
também a partir da década de trinta que o nacionalismo reflectirá o apoio de
forças poderosas que vinham adquirindo consciência política desde a dupla
revolução (francesa e industrial): elementos descontentes da pequena nobreza e
proprietários menos abastados e uma classe média e mesmo média inferior que
iam surgindo em vários países. Estes tinham como porta-vozes os intelectuais
das profissões liberais. O papel importante da pequena nobreza encontra-se bem
exemplificado nos casos da Polónia e Hungria. Aqui, o estado da nobreza é
miserável e tinham como concorrentes os poderosos magnatas e burgueses que
detinham o dinheiro. Apesar de terem confundido a sua oposição,
descontentamento e ambição a cargos influentes com interesses nacionalistas,
tiveram um papel importante. Por oposição, as classes comerciais que ascendem
socialmente nesta altura, não são tão nacionalistas, mesmo apesar de, na
Alemanha, uma união aduaneira (Zollverein)
Ter sido capaz de produzir um sentimento autêntico de unidade nacional. Por
outro lado, os núcleos industriais que só agora se estavam a desenvolver
preferiam de longe os grandes aos pequenos mercados que futuras independências
nacionais pudessem trazer. Isto levou a que os industriais polacos pedissem o
apoio do Império Austríaco contra os alemães.
As
grandes forças do nacionalismo das classes médias são os intelectuais, as
camadas administrativas, enfim, os educados. Por isso, podemos considerar o
aumento do número das escolas e das universidades como um reflexo do
crescimento do nacionalismo. Apesar de aumentar , o número de estudantes
continua a ser muito baixo, mas não impede que ganhem uma espécie de consciência
como grupo social.
O
nacionalismo, todavia, não se podia considerar um movimento de massas a não
ser nos países já atingidos pela dupla revolução: França. Inglaterra e, por
dependência económica e política desta, a Irlanda. Ainda para mais, o facto
dos instigadores do movimento nacional serem da classe média provocava
desconfiança no campesinato, os pobres. Antes de 1848, o único movimento
nacionalista que se pode dizer que tivesse o apoio das massas foi o do irlandês
O’Connell, que conseguiu despertar nas massas um sentido de política _ foi
muito ajudado pela participação da Igreja Católica a favor da Irlanda. No
entanto, o objectivo de O’Connell era apenas uma autonomia moderada e não a
independência (chegou a ter hipóteses de levantar toda a Irlanda contra a
Inglaterra, mas recusou-se deliberadamente).
Fora
do âmbito do mundo burguês moderno, havia movimentos de revolta popular contra
o domínio estrangeiro (frequentemente por serem de uma religião diferente e não
por serem de uma nacionalidade diferente), que viriam a originar conflitos
nacionalistas _ é o caso do Cáucaso contra o Império Turco. No entanto, quase
nenhuma destas revoltas populares tradicionalistas foram bem sucedidas. O único
movimento que uniu os «clãs de pastores» e os «bandoleiros» com os ideais
liberais da Revolução Francesa foi o que procurou _ e foi bem sucedido_ a
independência grega do Império Otomano (1821-30). Por ter sido bem sucedida,
esta luta tornou-se num mito inspirador para os movimentos nacionalistas por
todo o lado.
Nos países
da Europa Oriental existia uma espécie de proto-nacionalismo, mas desviou-se
para o conservadorismo e não para a rebelião.
Fora
do continente europeu, o nacionalismo foi levado para o Oriente pelas tropas
napoleónicas. No caso da América Latina, os Impérios Português e Espanhol
deram origem a variadas repúblicas, sem que no entanto, se possa dizer que
sejam resultado de fervor nacionalista. Constituídas na década de 20 (em 1825
já toda a América Latina era independente), estas repúblicas começam, em
1830, a ter ambições territoriais e interesses políticos constituídos. As
revoluções latino-americanas foram obras de pequenos grupos de aristocratas,
soldados e indivíduos evoluídos, deixando a população branca, pobre e católica
passiva e a população nativa hostil ou indiferente. Não se pode dizer que
haja mais do que um embrião de «consciência nacional».
Esta
era é caracterizada por três novas linhas que a tornam diferente da anterior.
A primeira é que o princípio das nacionalidades passa a ser considerado como
um elemento fundamental do direito internacional – é um dos critérios para o
reconhecimento de governos (a emancipação das nacionalidades submetidas e a
reunião dos diferentes fragmentos de uma nacionalidade). Uma outra linha é
que, para obter a nacionalidade é preciso, como no caso da Alemanha, passar por
cima da liberdade individual. Os movimentos apoiam-se nos povos e separam-se da
inspiração liberal da primeira metade do século XIX. Por fim, um outro
aspecto é que se deixa de acreditar tanto na sublevação dos povos e passa-se
a adoptar os meios ditos clássicos: a guerra estrangeira, a diplomacia, as
alianças externas _ a unidade italiana, que falhou quando foi tentada pelo
povo, é atingida no dia em que o Piemonte se alia à França ou à Alemanha de
Bismarck.
É
também neste período que o princípio das nacionalidades (ou nacionalismo) se
torna um objectivo geral de Europa. De facto, “a partir da Revolução de
1848, a opinião pública europeia já não concebia outra perspectiva legítima
se não o Estado Nacional”[4],
e toda a política internacional gira à volta da constituição de uma Europa
composta por Estados-nação.
Foi a
«Primavera dos Povos» que deu início às hostilidades nacionais, isto é, foi
a partir de 1848 que Alemães, Italianos, Húngaros, Polacos, Romenos e muitos
outros reclama o seu direito a serem Estados unificados e independentes,
incluindo todos os membros das respectivas nações e defendendo-os dos governos
opressores. Por toda a Europa Central aparecem, neste período de mais de vinte
anos, novos Estados: Alemanha, Itália, Roménia, Hungria (que conseguira uma
autonomia alargada com o compromisso de 1867). Apenas a Polónia não conseguiu
conquistar nem a autonomia, aquando da lutas de 1863.
Há,
por isso, uma clara distinção entre formação de nações e nacionalismo,
distinção que apareceu neste nosso período. Existiam na Europa nações cujos
estados, ou ambições de aí fundar estados, eram lógicas, e outros que
suscitavam dúvidas. Assim, para as nações que implicavam estados, a definição
passa pelos factos políticos, pela história das instituições, da cultura e
das letras _ “A França, a Inglaterra, a Rússia eram «nações» porque os
respectivos estados se identificavam com os franceses, os ingleses, etc.”[1]
Também a Alemanha constituía uma nação, apesar de nunca ter constituído um
Estado territorial, mas havia já formado o Sacro Império Romano-Germânico e a
Confederação Germânica. Por outro lado, os alemães cultos (e a Alemanha era
um dos poucos países que se podiam considerar letrada) falavam todos a mesma língua
e partilhavam a literatura.
Mas,
se o critério histórico dava importância decisiva à cultura e instituições
das elites, não as identificando
com as do povo, a base ideológica do nacionalismo é completamente diferente:
dizia, primeiro que tudo, que nenhum povo, independentemente da sua cultura ou
história, devia ser subjugado por outro; em segundo lugar, defendiam que o
sentimento de diferenciação não era étnico (no sentido de diferenças físicas
ou mesmo linguísticas). Se era um movimento cultural, não era a cultura literária
que importava, mas sim a cultura oral,
os costumes e maneiras de viver do povo (que é como quem diz do campesinato).
Este processo de recolha dos costumes não é um processo político. Deste modo,
o nacionalismo entra em conflito com os defensores do Estado-nação, que
defendiam a teoria económica[6],
uma vez que defende que nações até aqui não-históricas, isto é, pequenas
nações, constituíssem estados-nação.
Para
Giuseppe Mazzini, esta Europa das nacionalidades viáveis, tanto política e
economicamente, era constituída por onze estados. A solução dada pelo
italiano para as pequenas nações é a integração, por federação, nos
Estados-nação, podendo ou não conservar um determinado grau de autonomia.
Eric
Hobsbawm[7]
apresenta três soluções que a Europa das Nacionalidades podia adoptar em relação
às aspirações nacionais dos pequenos povos: negar a sua legitimidade ou existência,
considerá-los apenas como movimentos para uma autonomia regional (e não para
obter a independência), ou podiam ainda aceitá-los como factos incontroláveis.
Assim,
a diferença principal entre o movimento de fundação de Estados-nação e o
nacionalismo é que o primeiro é um programa de criação de um artifício político
que se basearia no segundo.
Um
exemplo quase perfeito desta divergência entre Estado-nação e Nacionalismo é
o caso da unificação de Itália. Grande parte do país foi unificado, em
1850-60, 1866 e 1870, sob a coroa do rei de Sabóia. Foi a primeira vez desde o
Império Romano que houve uma administração única entre os Alpes e a Sicília.
No entanto, apenas 2,5% dos habitantes falava italiano e, do geral dos
habitantes, aqueles que se consideravam italianos constituíam uma minoria[8].
Daí a célebre frase de Massimo d’Azeglio “Fizemos a Itália, agora temos
de fazer os italianos” (1860).
As
ambições nacionalistas da segunda metade do século XIX, não defendiam uma
posição extremista de um estado independente, territorial e linguísticamente
homogéneo e republicano e/ou parlamentar. Exigiam sim alterações políticas
mais ou menos profundas que faziam deles «nacionalistas». Existem assim,
dificuldades em perceber até que ponto os cidadãos dos estados já formados
sentiam a sua nacionalidade. Deste modo, não se devem tomar como certas a
universalidade e homogeneidade de nacionalismos como o alemão ou o francês,
apesar de serem um nacionalismo e patriotismo de massas.
De
1830-48 para agora, 1850-75, podemos verificar uma evolução do nacionalismo,
que passa de uma fase sentimental e folclorística para uma crescente politização,
por se terem criado sociedades, jornais e literatura nacionais e instituições
de educativas e culturais. Apesar disto, o movimento dos nacionalismos não
gozava do apoio da grande massa da população. Os seus adeptos vinham da classe
média, nomeadamente das classes instruídas: professores, baixo clero, alguns
lojistas e, mais tarde, os estudantes que se tornaram activos militantes. Os
membros mais pobres e mais atrasados da sociedade só mais tarde participaram
nestes movimentos, uma vez que seguiam o caminho das elites cultas. Estes
estratos mais baixos só participavam no nacionalismo (transformando-o num
nacionalismo de massas) quando se dava algum desenvolvimento económico e político.
No caso Checo, que ilustrará o que acima afirmamos, esta fase começou em 1848,
diminuiu com o absolutismo de 1850 e retomou muito rapidamente após 1860. Aqui,
a burguesia era suficientemente rica para dotar o país de instituições a nível
nacional _ um banco checo forte e um Teatro nacional. Para além disto, criaram
também instituições de massas, entre os quais se destacam os clubes de ginástica
– Sokol (1862). Este é um tipo de nacionalismo de massas que difere
em muito do nacionalismo alemão ou italiano. A este nacionalismo opõe-se ainda
outro, também de massas mas muito mais revolucionário, mais tradicional e também
mais afastado das classes médias. É o caso dos episódios nacionalistas que
levaram ao quase desmembramento do império Otomano que, sem dúvida, deram
origem a estados independentes (1870): Bulgária e Roménia. Estes, no entanto,
são apenas exemplos de proto-nacionalismo,
pois o que os rege não é o nacionalismo (pelo menos, principalmente), mas sim
a vontade de agir contra a opressão, a xenofobia e uma religião diferente. É
também deste tipo o nacionalismo irlandês.
A
Irmandade Republicana Irlandesa (Fenianos) descendia directamente das
fraternidades revolucionárias pré-existentes a 1848. Aqui, o apoio das massas
populares aos políticos é o resultado de uma combinação única de factores:
conquista estrangeira, pobreza, opressão, senhores de terra anglo-protestantes
impostos a uma massa rural irlandesa e católica. Na primeira metade do século
XIX, o nacionalismo irlandês tinha o apoio da Igreja Católica e apenas
ambicionava uma autonomia moderada (já foi referido acima o projecto de
O’Connell). O que os Fenianos, e o seu Exército Republicano Irlandês,
trouxeram de novo no fim da década de 1850 foi o facto de serem independentes
dos moderados da classe média, de terem apenas o apoio das classes populares (a
Igreja Católica estava contra) e, principalmente, o facto de proporem pela
primeira vez a independência total, alcançada pela insurreição armada. Nesta
altura (como agora) a base da nacionalidade era a religião – católica – em
oposição da dos ingleses – protestante. Uma outra novidade deste movimento
é que ele é apoiado financeiramente pelos emigrantes irlandeses que foram
‘empurrados’ para os Estados Unidos da América.
Apesar
de por agora ser um caso único, com o passar do tempo vamos assistindo à
massificação do nacionalismo. O desenvolvimento deste no seio da classe operária
aparece ao mesmo tempo que a consciência política, uma vez que os ideólogos e
os chefes dos novos movimentos operários estavam também envolvidos na questão
nacional _ isto acontecia quase em todo o lado após 1848. Dá-se também uma
aliança entre internacionalismo de esquerda e os defensores da causa nacional,
uma vez que o internacionalismo defendia a solidariedade, o apoio àqueles que
lutavam pela mesma causa noutras nações e, como muitos refugiados fizeram, a
participação activa na luta – não quer isto dizer que os internacionalistas
não tivessem uma paixão nacionalista pelo seu próprio país.
De
qualquer modo, por muito fortes que fossem os sentimentos nacionais, a nação
é sempre um facto artificial, não é espontânea, mas sim construída. E para
o sucesso desta construção contribuem certas instituições: o Estado, a educação
estatal, o serviço do estado e, em alguns países, o serviço militar obrigatório.
São estes os organismos que contribuem e fazem a uniformidade da nação.
O
papel da escola e dos diferentes graus de ensino varia de país para país. No
entanto, de modo geral, o número de estudantes universitários era baixo (a
Alemanha era o país onde havia mais) e apenas registaram grandes alterações
os países com pressões nacionalistas e os EUA. O ensino secundário
desenvolveu-se paralelamente à classe média, se bem que os estabelecimentos de
ensino secundário se destinassem às elites (por exemplo, em França, o ensino
secundário só deixou de ser pago por volta de 1930). Sem dúvida alguma, o
campo onde se notou realmente algum desenvolvimento foi no do ensino primário.
O desenvolvimento deste sector tinha como objectivos educar o povo, tanto para o
ensinar a ler e a escrever, como, principalmente, para lhe inculcar os valores
da sociedade _ a moral, o patriotismo, etc. servia também para politizar as
massas, ou pelo menos, para lhes incutir a participação na política. Assim, a
escolaridade “visa impor às massas um quadro mental completo, centrado na
relação que podem e devem ter com o Estado. Este quadro é o da língua
nacional estandardizada”[9].
Na realidade, só as escolas podiam impor e generalizar a língua nacional. Daí
a importância dada à luta pelo controlo das instituições estatais pelos
movimentos nacionalistas. Não é apenas a questão de fazer de uma língua a língua
nacional, mas sim “instituir o seu uso como marca primordial e obrigatória de
pertença à nação e de autêntico civismo”[10],
remetendo para o grau de dialecto todos as outras línguas. Há ainda que realçar
que a escolarização gratuita e obrigatória só é válida para o povo como
classe potencialmente perigosa e que convém controlar – a escola é o local
de inculcação do conceito de liberdade autolimitada.
Assim,
como comprova o que foi dito acima, a escola visava colocar a língua e a
cultura ao serviço do Estado Nacional (existente ou futuro). E é este uso da
cultura par servir o Estado que leva a um dos maiores paradoxos do nacionalismo:
ao mesmo tempo que forma uma nação, com língua oficial, suscita o
contranacionalidsmo daqueles que força a escolher entre a assimilação (e para
isso têm de aprender a língua oficial), ou a inferioridade _ se não falam a
mesma língua, não têm as mesmas hipóteses de arranjar um emprego. Por
exemplo, os checos, ao chegarem à Alemanha tinham de se tornar alemães para
serem alfabetizados; no caso de Praga, os seus cidadãos tinham conseguido
transformar os alemães numa minoria, mas continuavam a ter os nomes das ruas e
os regulamentos municipais em alemão.
Em
1870, o mapa da Europa está profundamente alterado, aparecendo novas potências
no coração do continente.
No
entanto, o problema das nacionalidades está longe de acabar. Nem os Checos, nem
os Croatas nem os Transilvanos compreendem por que razão os austríacos se
recusam a conceder-lhes o mesmo que haviam concedido à Hungria – uma
autonomia bastante alargada. O sentimento nacionalista polaco continua vivo,
mesmo após os fracassos de 1830 e 1863.
A
marca característica deste período é a transformação do conteúdo político
e ideológico do nacionalismo. É por esta altura que aparece a palavra
nacionalismo, identificada com grupos da ala direita em França e Itália,
decididos a “desfraldar a bandeira nacional contra estrangeiros”[11],
favorecendo uma expansão agressiva do seu próprio estado, característica
destes movimentos. É também nesta altura que a Alemanha obtém o seu hino
nacional _ ‘Deutschland über Alles’ (Alemanha acima de todos).
Apesar
de a palavra nacionalismo se limitasse a exprimir uma visão direitista do fenómeno,
logo substituiu a expressão «princípio das nacionalidades», que vinha desde
1830, e começou a ser utilizado englobando todos os movimentos nos quais a
causa nacional fosse o principal objectivo político.
Os
movimentos nacionalistas reclamam o direito à autodeterminação, isto é, o
direito a formar um Estado independente destinado a um determinado grupo
nacionalmente definido. A base destes nacionalismos era
o apoio pronto do povo, que se identificava emocionalmente com a sua nação
e que se mobilizava na sua qualidade de Checos, Alemães, Austríacos, etc. esta
mobilização voluntária era facilmente explorada pela política. No entanto,
esta mobilização era também um pouco acidental, uma vez que o principal apelo
dos movimentos nacionalistas era a libertação social. Por outro lado, o
nacionalismo viu, neste período, aumentar o seu significado político, bem como
aumentou a identificação nacional das massas.
Como já
disse, a partir de finais da década de 70, o nacionalismo e o patriotismo
associam-se à ala direita, o que é uma novidade, uma vez que estes movimentos
se haviam identificado até então com movimentos liberais e radicais e com a
Revolução Francesa.
De
facto, a tendência do nacionalismo, desde 1830, que tinha sido,
consecutivamente liberal e democrata, passou, a partir de 1875, para o lado
conservador. René Remond apresenta duas causas para tal acontecimento: os
acontecimentos internacionais e o socialismo[12].
Os
acontecimentos justificam o nacionalismo conservador que aparece na França, pós-1871.
Assim, ao nacionalismo universalista e federal, característico do período pós-1848,
sucedeu um nacionalismo “ferido, amargo, martirizado, angustiado pelo
sentimento de decadência e que desconfia do estrangeiro”[13].
O nacionalismo francês de depois de 1870 é um nacionalismo sensível, xenófobo
e exclusivo. Por outro lado, o socialismo contribui para esta viragem de modo
indirecto.
O
socialismo ganha uma posição importante no final do século XIX com o
aparecimento de uma consciência operária. No entanto, o significado
internacional do socialismo deriva das suas estruturas e da sua doutrina. A
definição internacionalista do socialismo contesta a legitimidade do fenómeno
nacionalista, uma vez que representa para o socialismo os álibis do
capitalismo, da dominação burguesa. O socialismo pretende lutar contra o
nacionalismo pois “a internacional será o género humano”[14].
Deparando-se com esta oposição, o nacionalismo volta para a direita,
tornando-se xenófobo e anti-semita, combatendo todas as forças supra- ou
extra-nacionais. Há que realçar que nos países que ainda estavam a lutar pela sua
independência, aqueles que ainda não tinham o seu próprio Estado, os
movimentos nacionalistas não tinham cor política.
Neste
período, de 1875 a 1914, existem sérias e profundas mutações no seio do
nacionalismo. A primeira delas, como já vimos, é a viragem à direita. A
segunda é o abandono total da ideia de estados-nação viáveis, isto é, a
ideia de que a autodeterminação remete para a formação de Estados soberanos
independentes, não se aplicando apenas às nações que se mostrassem económica,
política e culturalmente viáveis, mas sim a todos os que se proclamassem uma
nação. O terceiro aspecto é que a autodeterminação nacional implica a plena
independência, e não apenas um grau (mais ou menos elevado) de autonomia. Por
último, a tendência para definir nação com base em aspectos étnicos e
especialmente, linguísticos, toma neste período uma nova força.
A
partir do terceiro quartel do século XIX, aparecem movimentos nacionalistas em
povos até aqui considerados não-históricos (que nunca tinham possuído um
estado, uma classe dirigente, uma elite cultural – como a Finlândia e os
Eslovacos), mas também entre povos em que nunca ninguém havia pensado _
Estonianos e Macedónios. Aparecem também nacionalismos dentro de nações-estado
há muito existentes: dentro da Inglaterra, o caso do País de Gales; dentro da
Espanha, o exemplo do País Basco, que cria nesta altura o
Partido Nacional Basco. O curioso é que muitos destes movimentos não
tinham um grande apoio da população, mas a emigração de massas deu-lhes um
grande apoio, uma vez que entre os emigrantes havia a nostalgia de se
identificar com o que se havia deixado para trás.
Muitos
podiam pensar que, depois da unificação Alemã e Italiana, e do compromisso
Austro-Húngaro de 1867, o movimento das nacionalidades se tornaria menos
explosivo.
O que
realmente aconteceu foi uma profunda alteração na definição e programa do
nacionalismo. A definição étnico-linguística de nação apareceu nesta época.
Isto não significa que a língua não tivesse tido importância nacional
anteriormente, mas era apenas um dos critérios. O nacionalismo linguístico era
a criação das pessoas que escreviam e liam, e não do povo que a falava. O
nacionalismo que padronizou a ideologia e programas nacionais era um
nacionalismo territorial, na medida em que se baseava no modelo de Estado
territorial da Revolução Francesa ou, então, adoptava um sistema o mais próximo
possível do controlo político completo sobre um território claramente
definido e o conjunto dos seus habitantes. No entanto, a identificação de nações
com um determinado território exclusivo criava problemas muito sérios aos países
com um imigração massiva, mas também aos não-migratórios, pelo que se
procurou criar uma definição alternativa de nação. Isto fez aparecer uma
linha ideológica oposta ao nacionalismo territorial: o nacionalismo humano.
Este defendia que uma nação não seria uma fracção particular de um mapa,
mas sim um grupo particular de habitantes que se consideravam como pertencentes
a uma nacionalidade, onde quer que estivessem. Reconhecida esta qualidade,
passariam a beneficiar de uma «autonomia cultural». Esta foi a solução
alternativa de nacionalidade aplicável em especial ao Império Habsburgo e à
diáspora judaica.
“ O
Estado faz a nação e é obrigado a tal”[15].
Os governos chegavam agora directamente à população, a cada cidadão, no
respectivo território e no quotidiano, através de elementos como o carteiro,
professores, polícias e até mesmo ferroviários, dos quais o estado exigia
patriotismo. A nação era a nova religião dos estados: unia os cidadãos, e
levava o estado a cada um deles. Nos estados nacionais, o alcance do poder do
estado aumentava à medida que as massas se politizavam, através das eleições.
O que
tornava essencial o nacionalismo de estado era a exigência de educação de
massas, requisitada tanto por uma economia cada vez mais tecnológica como pela
natureza da administração pública e privada. Do ponto de vista do serviço ao
estado, a escola tinha a função de ensinar todas as crianças a serem bons súbditos
e bons cidadãos.
O
sistema educativo nacional, organizado pelo Estado, exigia que o ensino se
fizesse numa língua oficial. A educação, os tribunais e a burocracia, fizeram
da língua a primeira condição da nacionalidade. Também o serviço militar
era usado para incutir a consciência de nacionalidade. Por outro lado, o
nacionalismo de estado tanto podia mobilizar habitantes como alienar outros, que
não pertenciam, nem queriam pertencer à nação edificada. Mais uma vez, o
exemplo é o dos emigrantes, que sentiam na pele os movimentos nacionalistas da
sociedade de acolhimento, por serem vítimas de xenofobismo e por serem
obrigados a nacionalizar-se. Por isto, no seio dos imigrantes, a nacionalidade
transformou-se numa rede de relações pessoais porque cada vez que se encontra
um membro da mesma nacionalidade estabelece-se uma relação pessoal.
No
caso dos novos nacionalismos, o exílio era o local de incubação dos
movimentos. De facto, a maior expressão do nacionalismo eslovaco, por exemplo,
encontrava-se nos EUA.
Foi no
período que vai de 1830 a 1914 que nasceu, cresceu e se solidificou na Europa o
movimento dos nacionalismos. Tendo origem na Revolução Francesa, e actuando
como reacção à Restauração, o nacionalismo provocou o aparecimento de
Estados que se tornaram grandes potências: Bélgica, Alemanha, Itália. Foi
também por sua causa que se o povo e a elite política uniram vozes e,
principalmente, foi por sua causa que se instituiu a escolaridade primária como
obrigatória.
As
consequências do nacionalismo europeu são amplas. Não foi só a criação de
uma nova Europa, mas foi principalmente o despertar da resistência à opressão,
o levantamento dos pequenos que conseguiram chegar a grandes. E depois, o
nacionalismo está na origem do despoletar da Primeira Guerra Mundial, e irá
ser com as bases do nacionalismo conservador de finais do século XIX que irão
nascer os regimes autoritários e fascistas do pós guerra.
O
processo unificador alemão foi muito longo, onde podemos assistir a diversas
rivalidades e a um espírito nacionalista bastante enraizado, sobretudo na
classe intelectual.
O
processo unificador alemão foi muito longo, onde podemos assistir a diversas
rivalidades e a um espírito nacionalista bastante enraizado, sobretudo na
classe intelectual.
Para
compreendermos melhor a evolução política do processo unificador da Nação
alemã vamos abordá-lo a par com a evolução cultural que se assistiu na
Alemanha. É graças à evolução cultural que podemos perceber a raiz do
nacionalismo alemão.
Assim,
de 1815 a 1862, assistiu-se ao período da incerteza. É um período complexo e
atribulado em que a Nação alemã ainda não havia dado o passo decisivo a
caminho da unificação.
Depois
das invasões francesas, que chegam a ocupar por completo os territórios da
futura Alemanha, em Viena, os diplomatas europeus, em especial Metternich,
decidem o futuro a dar a esses territórios (uma vez que o Sacro Império
Romano-Germânico já havia sido extinto). Esta zona central da Europa era uma
zona muito importante para o equilíbrio e defesa das potências europeias
porque servia de tampão entre a França e o Império Austríaco e Russo.
Assim,
ficou estabelecido que a Alemanha deveria formar uma Confederação de Estados (staatenbund) que agrupava trinta e nove membros: um Império (a Áustria),
cinco reinos (Prússia, Hanôver, Saxónia, Baviera e Vurtemberga), dezoito Grãos-Ducados
ou Ducados, onze Principados e quatro cidades-livres (Hamburgo,
Francoforte,Bremen e Lübeck). A Áustria preside à Confederação, que é
regida por uma Dieta Federal, sediada em Francoforte. Com esta organização os
povos ficam, assim, frustrados das suas esperanças democráticas e
nacionalistas.
Este
mapa também mostra que cabia à Prússia a supremacia do ponto de vista
territorial e militar. Essa supremacia alargar-se-á, então, à economia com a
fundação da Zollverein (acordos
aduaneiros estabelecidos entre os diversos estados alemães para promover a
economia), iniciativa tomada pela Prússia.
A
Prússia fica então com os louros políticos, económicos e militares. A partir
daqui os diversos estados alemães olham a Prússia como sua chefe para a
unificação, sendo que essa era também a ideia do rei da Prússia, Frederico
Guilherme IV. Ao ficar com o controlo económico, a Prússia aspirava a uma
unificação política controlada por si, não de uma forma liberal mas sim
tradicionalista, apoiadas nas afirmações dos poetas germânicos acerca da
existência de um Pangermanismo.
Aliada
a este ressurgimento da ideia de Pangermanismo aparecem as discordâncias, por
parte dos estudantes que defenderam a suposta pátria durante as invasões
francesas. Estes também queriam a união da Alemanha e aspiravam ao
liberalismo.
Desta
forma, a revolução de 1830 na França vai incendiar o povo alemão e as suas
aspirações unitaristas e liberais estarão na oriigem dos movimentos
insurrecionais na Saxónia e Hanover (principalmente). Apesar de em alguns casos
estas insurreições terem conseguido que lhes fossem outorgadas constituições,
estes movimentos são esmagados pelas forças absolutistas.
A
Confederação Alemã entra, assim, na década de 40 em grande efervescência.
Por um lado está a luta pelo liberalismo e pelo unitarismo e por outro lado o
ressurgimento das ideias de pangermanismo e de uma união que marcava o passado
dos povsr germanicos.
A
revolução de 48, em França, vai uma vez mais criar problemas na vizinha
confederação.
Em
Berlim, o rei da Prússia, em 1847, havia sido forçado a convocar uma Dieta
geral para lançar um empréstimo para a construção dos caminhos-de-ferro. O
rei vai deparar-se com a recusa da conseção dos créditos e, por isso, não
promulga a constituição. Porém, perante um motim sangrento em 1848, o rei
concede aos liberais o poder de formar um ministério. Mas a revolução foi
esmagada em Viena e o rei entregou esse ministério ao partido conservador.
Apesar disso, orei não foi capaz de negar uma constituição, apesar de tudo
muito pouco liberal.
É,
então, formado um parlamento que, já depois das eleições para as
constituintes, se rúne a 18 de Maio em Francoforte. Esse parlamento era
composto, principalmente, por intelectuais, apoiantes do romantismo
nacionalista. Formou-se um governo. Mas as divergências surgiram aquando da
discussão entre os adeptos de uma «Grande Alemanha» (englobava a Áustria) e
os adeptos da «Alemanha Pequena» (sem a Áustria). A «Alemanha pequena» sai
vencedora.
Votada
a constituição (francamente democrática), esta nunca irá ser cumprida. Por
medo da Áustria e negando o princípio da soberania popular, o rei da Prússia,
monarca conservador convencido do seu direito divino, declína a coroa
constitucional.
O
parlamento foi, por fim, disperso pelos soldados do rei de Vurtemberga e a
constituição irá ser esquecida.
Pode-se
dizer que este foi o episódio derradeiro da luta pello liberalismo
e ppor uma unificação democrática na Alemanha. Um dos apoiantes do
liberalismo, a burguesia, iludida pelo desenvolvimento económico promovido pelo
sucesso da Zollverein, abandonará a
quimera idealista e virar-se-á somente para o desenvolvimento das empresas. Com
isto a Alemanha começa a adquirir a viabilidade económica que gaantirá a sua
independência.
Entre
1815 e 1862, além de ser um período de instabilidade e incerteza, como já
haviamos dito, a futura Alemanha viveu uma sériede oscilações entre
possibilidades antagónicas:
A
primeira é a oscilação entre a hegemonia de Viena ou a de Berlim - se a Áustria
leva a avante a Prússia vai bem no seu encalce;
A
segunda é a variação entre a fascinação exercida pela ideia de Reich
ou a efectivação de uma união «prússificada» - se os escritores românticos
fizeram ressurgir a ideia de unidade cultural e histórica da Alemanha, a Prússia
atraiu todos aqueles que buscavam a ideia de unificação e de pátria. O Reich
para ser realizado não podia ignorar a força da Prússia;
A
terceira é a luta entre o absolutismo e liberalismo - o absolutismo vai-se
tornando cada zez mais moderado, concedendo até a outorga de constituições em
alguns Estados.
Este
é oclima antagónico que se assiste entre 1815 e 1862 na Confederação Alemã.
Do
ponto de vista cultural, os intelectuais apelam à união da Nação contra a Áustria
e vão cedendo à atracção pela união centrada na Prússia.
São
eles os fundadores e defensores das teorias do Pangermanismo. Contudo, a
apologia da Prússia e da união nacional encabeçada por ela foi baseada pelo
filósofo alemão Hegel.
Para
Hegel o Estado é o produto do desenvolvimento da Razão. "Ele é o produto
de um contrato, como pensam os teóricos liberais da época das luzes. É uma
realidade absoluta que preexiste e sobrevive aos indivíduos, infinitamente
superior a todas as vontades particulares. Os indivíduos devem submeter-se-lhe
inteiramente, pois que ele os ultrapassa sem medida comum com eles. E, pois,
simultaneamente divino e terrestre: Das
Irdisch-Göttliche".
Podemos
dizer que para além do Estado dever ser forte e racional é elevado á altura
duma dinvidade cujo poder se impõe metefísicamente. Podemos também dizer que
a doutina hegeliana vai mais longe: "Humilha a pessoa em presença do poder
estabelecido e confirma esse movimento germânico de deferência para com o
poder e a autoridade de que lutero forneceu as premissas". Para concluir a
apologia de Hegel, para ele, apenas o Estado prussiano corresponde a este
Estado-tipo, "poque a Prússia é um conglomerado de troncos alemães que
lutaram contra o eslavismo, (...) um sistema autoritário e abstracto que levou
a melhor sobre as diversidades".
Quase
a chegar a 1862, podemos afirmar que a situação da prússia é ainda instável:
o liberalismo foi praticamente derrotado, mas muitos Estados adoptaram uma
constituição; a unidade de base democrática não pôde realizar-se, mas a
unidade já se impôs, com sucesso, no plano económico. Além do mais, a
ideologia de cariz nacionalista não pára de se desenvolver.
Com
a subida ao poder de Bismark a Alemanha dá o passo decisivo para a unificação.
Para isso, segundo Bismark, era necessário resolver defenitivamente as relações
entre a Áustria e a Prússia. Nesse seguimento a unificação poderia dar-se,
sendo que a Prússia ficaria com o poder.
Esse
plano desenvolveu-se em três etapas decisivas:
A
primeira consistia na da Áustria à Prussia na guerra contra a Dinamarca para a
conquista dos Ducados de Holstein, Schleswig e Lauenburg em proveito da potência
alemã.
A
segunda etapa passou pela guerra austro-prussiana de 1866, que foi ganha pela Prússia
em Sadowa. Com esta vitória muitos dos Estados fronteiriços à Prússia foram
incorporados no seu reino.
Ao
separar-se da Áustria, a Prússia tomava à cabeça o controlo de uma nova
confederação de Estados.
Graças
a esta segunda etapa, Bismark consegue livrar-se da Austria, relegando-a para
segundo plano.
A
terceira e última etapa passou pela vitória prussiana na guerra contra a França
de 1870-71. Com esta vitória o novo estado alemão vai se assumir como uma potência
que teve que ser reconhecida pelos restantes Estados europeus. A Alemanh passou
então a ser um Estado-Nação organizado, política e militarmente, com uma
economia em expansão, com uma cultura baseada no passado e com fortes raízes
de consciêcia nacional.
A
18 de Janeiro de 1871, Guilherme era proclamdo Imperador da Alemanha.
O
Império alemão era regido pela constituição de Abril de 1871, adaptação da
antiga constituição da Alemanha do Norte. Agora, esta nova Nação conta
apenas com vinte e cinco Estados, cada um com uma constituição própria. Aos
governos do Estado estava confiado o poder de decisão sobre o ensino, o culto,
a justiça e as obras públias.
O
Estado Federal tem "duas assembleias comuns, o Reichtag
e o Bundesrat, o primeiro eleito, o
segundo composto pelos representantes dos governos dos Estados e dispondo de
poderes superiores. O poder executivo é exercido pelo imperador, assistido por
um chanceler, responsável perante ele e não perante as câmaras", logo, não
era um regime parlamentarista.
Ao
nascer de três guerras, o Estado alemão vai conservar o seu militarismo até
à primeira guerra mundial.
Quanto
à posição das restantes potências estrangeiras, a rápida unificação alemã
assustou-as, uma vez que se realizou apenas pelo cérebro de um homem, Bismark.
O único móbile que tinha eram, apenas princípios particulares, de uma suposta
Nação apoiada no seu passado e não um princípio universalmente válido.
O
poder político da nova Nação acentava no unitarismo e no conservadorismo. O
poder era concentrado na mão do imperador e do chanceler, que o assegurava
efectivamente.
De
1871 a 1890, Bismark leva a cabo a consolidação do Reich.
Para isso procura no plano estrangeiro manter o isolamento diplomático da França,
conservar boas relações com a Rússia.
Quanto
à política interna, para consolidação do Reich,
coligou-se ora com a burguesia ora com os conservadores para prosseguir com as
suas políticas. Bismark beneficiou ainda de boas relações com o proletariado
revolucionário, protegendo os direitos do mesmo, numa Nação com um próspreo
desenvolvimento económico.
Porém,
ao retirar-se Bismark entrega ao rei Guilhrme II uma monarquia de características
complexas, cujos elemntos difícilmente poderiam ser mantidos em armonia, como
nos mostra este excerto: "Politicamente falando, o equilíbrio não é
maior. A monarquia tem cada vez mais dificuldades em exercer o Poder: cinco
chanceleres e oitenta ministros entre 1888 e 1912. O parlamento representa a Nação,
mas não a governa".
Estes
problemas politicos são camuflados pelo rápido progresso técnico e
industrial, que vai pôr a Nação alemã a par do Reino Unido. Este ritmo
acelerado da industrialização obrigava a que os governantes alemães buscassem
a todo o custo mercados novos sob o risco de terem uma grave crise económica.
Esta
ideia de expansão vai potenciar uma nova forma de nacionalismo - o
Pangermanismo económico - traduzindo-se assim em doutrina. Essas doutrinas
pangermanicas representavam uma degradação do espírito porque eram expressão
da soberba materialista. Se, até aqui, a Alemanha tinha baseado a sua
superioridade, face ás outras nações, nos seus mitos e passados históricos
(na tradição do povo germânico), agora põe de lado essas ideias metafísicas.
A
criação de organizações como a Liga Pangermanista são espelho dessas
doutrinas. Promovem uma política de expansão geográfica além fronteiras. É
no seguimento destas ideias que se forma uma opinião mais «científica»: os
alemãs pertencem a uma raça superior; abre-se assim caminho para as ideias do
Nacional- Socialismo.
Ao
seguir esta ideologia de cariz racista e xenófobo, o nacionalismo alemão
foi-se radicalizando. Isto somado a uma forte industrialização (necessidade de
conquista de mercados) e ao militarismo vai levar a Alemanha à primeira Guerra
Mundial e ao fim do II Reich.
Uma
vez esclarecida a evolução política da Alemanha durante todo o século XIX
vamos falar da evolução cultural que, para o caso da Alemanha, foi muito
importante para fundamentar o seu nacionalismo.
O
estilo literário que mais apoiou e defendeu o conhecimento e a descoberta do
passado alemão foi o romantismo.
A
cultura alemã posterior à data da unificação caracteriza-se por ser uma arte
intimista que mistura elementos do estilo idealista e do estilo romântico,
tentando não esquecer a realidade de cada dia. Porém, esta realidade está
impregnada de elementos sentimentais e nobilitantes, com fortes juízos morais.
É
neste seguimento que o movimento do Biedermeier
surge. Durante a época da Restauração, enquanto os partidários da unidade
nacional e do liberalismo eram perseguidos pelo regime de Metternich, alguns
escritores alemães aplicaram-se no restauro do passado, na busca da calma e da
felicidade. Era a busca por uma vida bucólica e medieval, "era o triunfo
de um romantismo idílico-pequeno-burguês".
Contratando
com o Biedermeier surge o Movimento da
Jovem Alemanha, com objectivos políticos, sociais e literários. É um
movimento de oposição contra um romantismo clerical e conservador. É
combatente do absolutismo da Santa Aliança, da censura, do militarismo. É
anti-religioso e defende a igualdade entre os sexos.
Muitos
dos seus membros tiveram que se exilar depois das vagas revolucionárias de 1830
e 1848, pelas suas opiniões radicais.
Como
se pode ver eram vários e antagónicos os movimentos culturais da futura
Alemanha, mas movimentos como o Biedermeier
são quem vão vencer e propulsionarem o nacionalismo, por defenderem posições
mais conservadoras e tradicionalistas, obviamente aceites pela Prùssia.
Mas
é com o pensamento de Wagner que a cultura entra no jogo da política. É graças
à cultura que se acentuam as diferenças entre a Alemanha e o resto da Europa.
Com Wagner a Alemanha descobre e mostra ao mundo a sua história e a sua tradição.
Spenlé, Falando de Goethe e Wagner, caracteriza-os assim: "Goethe foi para
o século XVIII cosmopolita, totalizando em si todo o humanismo clássico, foi-o
Richard Wagner para o século XIX romântico e nacionalista". Wagner é então
o remate do romantismo alemão, sendo um dos grandes intelectuais que promoveram
o desenvolvimento do romantismo cultural europeu e, em particular, as bases do
nacionalismo germânico: "Pelo seu «germanismo», ele continua o
romantismo nacionalista. Deve-se-lhe em primeiro lugar o facto de ter levado ao
seu ponto mais alto o entusiasmo dos alemães pelo passado germânico. Foi com a
Tetralogia que os mitos
germano-escandinavos se tornaram verdadeiramente substância da Nação. (...)
É graças a ele que o alemão se reconhace em Siegfried, o louro germânico, másculo
e descuidado, generoso e sem malícia (...) mas que, esclarecido pela experiência
da piedade e pela compreensão
deslumbrada da natureza primaveril, assume a direcção de uma comunidade mística
de soldados e reencontra a verdadeira religiosidade germânica que regenerará
os homens. Wagner leva, pois, ao auge o culto da Alemanha pelo seu ser e pelo
seu passado".
Para
melhor compreender a evolução política do processo unificador da Nação alemã,
vamos abordá-lo a par com a evolução cultural que se assistiu na Alemanha. É
graças à evolução cultural que podemos perceber a raíz do nacionalismo alemão.
Assim,
de 1815 a 1862, assistiu-se ao período da incerteza. É um período complexo e
atribulado em que a Nação alemã ainda não havia dado o passo decisivo a
caminho da unificação.
Depois
das invasões francesas, que chegam a ocupar por completo os territórios da
futura Alemanha, em Viena, os diplomatas europeus, em especial Metternich,
decidem o futuro a dar a esses territórios (uma vez que o Sacro Império
Romano-Germânico já havia sido extinto). Esta zona central da Europa era uma
zona muito importante para o equilíbrio e defesa das potências europeias
porque servia de tampão entre a França e o Império Austríaco e Russo.
Assim,
ficou estabelecido que a Alemanha deveria formar uma Confederação de Estados (staatenbund) que agrupava trinta e nove membros: um Império (a Áustria),
cinco reinos (Prússia, Hanôver, Saxónia, Baviera e Vurtemberga), dezoito Grãos-Ducados
ou Ducados, onze Principados e quatro cidades-livres (Hamburgo,
Francoforte,Bremen e Lübeck). A Áustria preside à Confederação, que é
regida por uma Dieta Federal, sediada em Francoforte. Com esta organização os
povos ficam, assim, frustrados das suas esperanças democráticas e
nacionalistas.
Este
mapa também mostra que cabia à Prússia a supremacia do ponto de vista
territorial e militar. Essa supremacia alargar-se-á, então, à economia com a
fundação da Zollverein (acordos
aduaneiros estabelecidos entre os diversos estados alemães para promover a
economia), iniciativa tomada pela Prússia.
A
Prússia fica então com os louros políticos, económicos e militares. A partir
daqui os diversos estados alemães olham a Prússia como sua chefe para a
unificação, sendo que essa era também a ideia do rei da Prússia, Frederico
Guilherme IV. Ao ficar com o controlo económico, a Prússia aspirava a uma
unificação política controlada por si, não de uma forma liberal mas sim
tradicionalista, apoiadas nas afirmações dos poetas germânicos acerca da
existência de um Pangermanismo.
Aliada
a este ressurgimento da ideia de Pangermanismo aparecem as discordâncias, por
parte dos estudantes que defenderam a suposta pátria durante as invasões
francesas. Estes também queriam a união da Alemanha e aspiravam ao
liberalismo.
Desta
forma, a revolução de 1830 na França vai incendiar o povo alemão e as suas
aspirações unitaristas e liberais estarão na oriigem dos movimentos
insurrecionais na Saxónia e Hanover (principalmente). Apesar de em alguns casos
estas insurreições terem conseguido que lhes fossem outorgadas constituições,
estes movimentos são esmagados pelas forças absolutistas.
A
Confederação Alemã entra, assim, na década de 40 em grande efervescência.
Por um lado está a luta pelo liberalismo e pelo unitarismo e por outro lado o
ressurgimento das ideias de pangermanismo e de uma união que marcava o passado
dos povsr germanicos.
A
revolução de 48, em França, vai uma vez mais criar problemas na vizinha
confederação.
Em
Berlim, o rei da Prússia, em 1847, havia sido forçado a convocar uma Dieta
geral para lançar um empréstimo para a construção dos caminhos-de-ferro. O
rei vai deparar-se com a recusa da conseção dos créditos e, por isso, não
promulga a constituição. Porém, perante um motim sangrento em 1848, o rei
concede aos liberais o poder de formar um ministério. Mas a revolução foi
esmagada em Viena e o rei entregou esse ministério ao partido conservador.
Apesar disso, orei não foi capaz de negar uma constituição, apesar de tudo
muito pouco liberal.
É,
então, formado um parlamento que, já depois das eleições para as
constituintes, se rúne a 18 de Maio em Francoforte. Esse parlamento era
composto, principalmente, por intelectuais, apoiantes do romantismo
nacionalista. Formou-se um governo. Mas as divergências surgiram aquando da
discussão entre os adeptos de uma «Grande Alemanha» (englobava a Áustria) e
os adeptos da «Alemanha Pequena» (sem a Áustria). A «Alemanha pequena» sai
vencedora.
Votada
a constituição (francamente democrática), esta nunca irá ser cumprida. Por
medo da Áustria e negando o princípio da soberania popular, o rei da Prússia,
monarca conservador convencido do seu direito divino, declína a coroa
constitucional.
O
parlamento foi, por fim, disperso pelos soldados do rei de Vurtemberga e a
constituição irá ser esquecida.
Pode-se
dizer que este foi o episódio derradeiro da luta pello liberalismo
e ppor uma unificação democrática na Alemanha. Um dos apoiantes do
liberalismo, a burguesia, iludida pelo desenvolvimento económico promovido pelo
sucesso da Zollverein, abandonará a
quimera idealista e virar-se-á somente para o desenvolvimento das empresas. Com
isto a Alemanha começa a adquirir a viabilidade económica que gaantirá a sua
independência.
Entre
1815 e 1862, além de ser um período de instabilidade e incerteza, como já
haviamos dito, a futura Alemanha viveu uma sériede oscilações entre
possibilidades antagónicas:
A
primeira é a oscilação entre a hegemonia de Viena ou a de Berlim - se a Áustria
leva a avante a Prússia vai bem no seu encalce;
A
segunda é a variação entre a fascinação exercida pela ideia de Reich
ou a efectivação de uma união «prússificada» - se os escritores românticos
fizeram ressurgir a ideia de unidade cultural e histórica da Alemanha, a Prússia
atraiu todos aqueles que buscavam a ideia de unificação e de pátria. O Reich
para ser realizado não podia ignorar a força da Prússia;
A
terceira é a luta entre o absolutismo e liberalismo - o absolutismo vai-se
tornando cada zez mais moderado, concedendo até a outorga de constituições em
alguns Estados.
Este
é oclima antagónico que se assiste entre 1815 e 1862 na Confederação Alemã.
Do
ponto de vista cultural, os intelectuais apelam à união da Nação contra a Áustria
e vão cedendo à atracção pela união centrada na Prússia.
São
eles os fundadores e defensores das teorias do Pangermanismo. Contudo, a
apologia da Prússia e da união nacional encabeçada por ela foi baseada pelo
filósofo alemão Hegel.
Para
Hegel o Estado é o produto do desenvolvimento da Razão. "Ele é o produto
de um contrato, como pensam os teóricos liberais da época das luzes. É uma
realidade absoluta que preexiste e sobrevive aos indivíduos, infinitamente
superior a todas as vontades particulares. Os indivíduos devem submeter-se-lhe
inteiramente, pois que ele os ultrapassa sem medida comum com eles. E, pois,
simultaneamente divino e terrestre: Das
Irdisch-Göttliche".
Podemos
dizer que para além do Estado dever ser forte e racional é elevado á altura
duma dinvidade cujo poder se impõe metefísicamente. Podemos também dizer que
a doutina hegeliana vai mais longe: "Humilha a pessoa em presença do poder
estabelecido e confirma esse movimento germânico de deferência para com o
poder e a autoridade de que lutero forneceu as premissas". Para concluir a
apologia de Hegel, para ele, apenas o Estado prussiano corresponde a este
Estado-tipo, "poque a Prússia é um conglomerado de troncos alemães que
lutaram contra o eslavismo, (...) um sistema autoritário e abstracto que levou
a melhor sobre as diversidades".
Quase
a chegar a 1862, podemos afirmar que a situação da prússia é ainda instável:
o liberalismo foi praticamente derrotado, mas muitos Estados adoptaram uma
constituição; a unidade de base democrática não pôde realizar-se, mas a
unidade já se impôs, com sucesso, no plano económico. Além do mais, a
ideologia de cariz nacionalista não pára de se desenvolver.
Com
a subida ao poder de Bismark a Alemanha dá o passo decisivo para a unificação.
Para isso, segundo Bismark, era necessário resolver defenitivamente as relações
entre a Áustria e a Prússia. Nesse seguimento a unificação poderia dar-se,
sendo que a Prússia ficaria com o poder.
Esse
plano desenvolveu-se em três etapas decisivas:
A
primeira consistia na da Áustria à Prussia na guerra contra a Dinamarca para a
conquista dos Ducados de Holstein, Schleswig e Lauenburg em proveito da potência
alemã.
A
segunda etapa passou pela guerra austro-prussiana de 1866, que foi ganha pela Prússia
em Sadowa. Com esta vitória muitos dos Estados fronteiriços à Prússia foram
incorporados no seu reino.
Ao
separar-se da Áustria, a Prússia tomava à cabeça o controlo de uma nova
confederação de Estados.
Graças
a esta segunda etapa, Bismark consegue livrar-se da Austria, relegando-a para
segundo plano.
A
terceira e última etapa passou pela vitória prussiana na guerra contra a França
de 1870-71. Com esta vitória o novo estado alemão vai se assumir como uma potência
que teve que ser reconhecida pelos restantes Estados europeus. A Alemanh passou
então a ser um Estado-Nação organizado, política e militarmente, com uma
economia em expansão, com uma cultura baseada no passado e com fortes raízes
de consciêcia nacional.
A
18 de Janeiro de 1871, Guilherme era proclamdo Imperador da Alemanha.
O
Império alemão era regido pela constituição de Abril de 1871, adaptação da
antiga constituição da Alemanha do Norte. Agora, esta nova Nação conta
apenas com vinte e cinco Estados, cada um com uma constituição própria. Aos
governos do Estado estava confiado o poder de decisão sobre o ensino, o culto,
a justiça e as obras públias.
O
Estado Federal tem "duas assembleias comuns, o Reichtag
e o Bundesrat, o primeiro eleito, o
segundo composto pelos representantes dos governos dos Estados e dispondo de
poderes superiores. O poder executivo é exercido pelo imperador, assistido por
um chanceler, responsável perante ele e não perante as câmaras", logo, não
era um regime parlamentarista.
Ao
nascer de três guerras, o Estado alemão vai conservar o seu militarismo até
à primeira guerra mundial.
Quanto
à posição das restantes potências estrangeiras, a rápida unificação alemã
assustou-as, uma vez que se realizou apenas pelo cérebro de um homem, Bismark.
O único móbile que tinha eram, apenas princípios particulares, de uma suposta
Nação apoiada no seu passado e não um princípio universalmente válido.
O
poder político da nova Nação acentava no unitarismo e no conservadorismo. O
poder era concentrado na mão do imperador e do chanceler, que o assegurava
efectivamente.
De
1871 a 1890, Bismark leva a cabo a consolidação do Reich.
Para isso procura no plano estrangeiro manter o isolamento diplomático da França,
conservar boas relações com a Rússia.
Quanto
à política interna, para consolidação do Reich,
coligou-se ora com a burguesia ora com os conservadores para prosseguir com as
suas políticas. Bismark beneficiou ainda de boas relações com o proletariado
revolucionário, protegendo os direitos do mesmo, numa Nação com um próspreo
desenvolvimento económico.
Porém,
ao retirar-se Bismark entrega ao rei Guilhrme II uma monarquia de características
complexas, cujos elemntos difícilmente poderiam ser mantidos em armonia, como
nos mostra este excerto: "Politicamente falando, o equilíbrio não é
maior. A monarquia tem cada vez mais dificuldades em exercer o Poder: cinco
chanceleres e oitenta ministros entre 1888 e 1912. O parlamento representa a Nação,
mas não a governa".
Estes
problemas politicos são camuflados pelo rápido progresso técnico e
industrial, que vai pôr a Nação alemã a par do Reino Unido. Este ritmo
acelerado da industrialização obrigava a que os governantes alemães buscassem
a todo o custo mercados novos sob o risco de terem uma grave crise económica.
Esta
ideia de expansão vai potenciar uma nova forma de nacionalismo - o
Pangermanismo económico - traduzindo-se assim em doutrina. Essas doutrinas
pangermanicas representavam uma degradação do espírito porque eram expressão
da soberba materialista. Se, até aqui, a Alemanha tinha baseado a sua
superioridade, face ás outras nações, nos seus mitos e passados históricos
(na tradição do povo germânico), agora põe de lado essas ideias metafísicas.
A
criação de organizações como a Liga Pangermanista são espelho dessas
doutrinas. Promovem uma política de expansão geográfica além fronteiras. É
no seguimento destas ideias que se forma uma opinião mais «científica»: os
alemãs pertencem a uma raça superior; abre-se assim caminho para as ideias do
Nacional- Socialismo.
Ao
seguir esta ideologia de cariz racista e xenófobo, o nacionalismo alemão
foi-se radicalizando. Isto somado a uma forte industrialização (necessidade de
conquista de mercados) e ao militarismo vai levar a Alemanha à primeira Guerra
Mundial e ao fim do II Reich.
Uma
vez esclarecida a evolução política da Alemanha durante todo o século XIX
vamos falar da evolução cultural que, para o caso da Alemanha, foi muito
importante para fundamentar o seu nacionalismo.
O
estilo literário que mais apoiou e defendeu o conhecimento e a descoberta do
passado alemão foi o romantismo.
A
cultura alemã posterior à data da unificação caracteriza-se por ser uma arte
intimista que mistura elementos do estilo idealista e do estilo romântico,
tentando não esquecer a realidade de cada dia. Porém, esta realidade está
impregnada de elementos sentimentais e nobilitantes, com fortes juízos morais.
É
neste seguimento que o movimento do Biedermeier
surge. Durante a época da Restauração, enquanto os partidários da unidade
nacional e do liberalismo eram perseguidos pelo regime de Metternich, alguns
escritores alemães aplicaram-se no restauro do passado, na busca da calma e da
felicidade. Era a busca por uma vida bucólica e medieval, "era o triunfo
de um romantismo idílico-pequeno-burguês".
Contratando
com o Biedermeier surge o Movimento da
Jovem Alemanha, com objectivos políticos, sociais e literários. É um
movimento de oposição contra um romantismo clerical e conservador. É
combatente do absolutismo da Santa Aliança, da censura, do militarismo. É
anti-religioso e defende a igualdade entre os sexos.
Muitos
dos seus membros tiveram que se exilar depois das vagas revolucionárias de 1830
e 1848, pelas suas opiniões radicais.
Como
se pode ver eram vários e antagónicos os movimentos culturais da futura
Alemanha, mas movimentos como o Biedermeier
são quem vão vencer e propulsionarem o nacionalismo, por defenderem posições
mais conservadoras e tradicionalistas, obviamente aceites pela Prùssia.
Mas
é com o pensamento de Wagner que a cultura entra no jogo da política. É graças
à cultura que se acentuam as diferenças entre a Alemanha e o resto da Europa.
Com Wagner a Alemanha descobre e mostra ao mundo a sua história e a sua tradição.
Spenlé, Falando de Goethe e Wagner, caracteriza-os assim: "Goethe foi para
o século XVIII cosmopolita, totalizando em si todo o humanismo clássico, foi-o
Richard Wagner para o século XIX romântico e nacionalista". Wagner é então
o remate do romantismo alemão, sendo um dos grandes intelectuais que promoveram
o desenvolvimento do romantismo cultural europeu e, em particular, as bases do
nacionalismo germânico: "Pelo seu «germanismo», ele continua o
romantismo nacionalista. Deve-se-lhe em primeiro lugar o facto de ter levado ao
seu ponto mais alto o entusiasmo dos alemães pelo passado germânico. Foi com a
Tetralogia que os mitos
germano-escandinavos se tornaram verdadeiramente substância da Nação. (...)
É graças a ele que o alemão se reconhace em Siegfried, o louro germânico, másculo
e descuidado, generoso e sem malícia (...) mas que, esclarecido pela experiência
da piedade e pela compreensão
deslumbrada da natureza primaveril, assume a direcção de uma comunidade mística
de soldados e reencontra a verdadeira religiosidade germânica que regenerará
os homens. Wagner leva, pois, ao auge o culto da Alemanha pelo seu ser e pelo
seu passado".
&
Hobsbawm,
Eric, O Nacionalismo, “Era das Revoluções”, Editorial Presença,
s/d, Lisboa
&
Hobsbawm,
Eric, A Criação de Nações, “Era do Capital”, Ed. Presença, s/d,
LisboA
&
Hobsbawm,
Eric, Bandeiras desfraldadas: Nações e Nacionalismo, “Era do Império”,
Ed. Presença, s/d, Lisboa
&
Hobsbawm,
Eric , Nações e Nacionalismo
in
“Ler História”, nº 5, 1985
&
Schultze,
Häagen, Os Estados Nacionais, “Estado e Nação na História
Europeia”
&
Hermett,
Guy, “História das Nações e do Nacionalismo na Europa”, colecção Nova História, Ed. Presença, pps 67-155
[1]Hobsbawm, no artigo públicado na revista Ler História nº 5 dá como exemplo a civilização dos Indios Quechua (obviamente de uma forma jocosa.
[2]in Ler História, Nº 5, 1985
[3]
Hobsbawm, Eric, “Era das Revoluções”, pg. 184, Ed. Presença, 1978,
Lisboa
[5]
Hobsbawm, Eric, A Criação de Nações, “Era do Capital”, Ed. Presença
[6] Para um estado constituir um Estado-nação, tinha de ser económica e politicamente viável, o que levava a crer que só seriam admitidos como Estados-nação os estados de tamanho médio.
[7]
Op. Cit.
[8]
Idem
Esta
posição de que o internacionalismo apoiou o nacionalismo é defendida por
Hobsbawm, na “Era do Capital”, no capítulo referente aos Nacionalismos.
Não deixa de ser curioso compará-la com a de René Remond, que será
exposta aquando do desenvolvimento do terceiro período, mais à frente.
[9]
Hermett, Guy, Morte dos Reis, Nascimento da Nação, “História das Nações
e do Nacionalismo na Europa”
[10]
Idem
[11]
Hobsbawm, Eric, Bandeiras Desfraldadas: Nações
e Nacionalismo, “Era do Império”
[12]
René Remond, O Movimento das
Nacionalidades, “ Introdução à História do Nosso Tempo – do Antigo
Regime aos nossos dias”.
[13]
Idem
[14]
Ibidem
Esta é sem dúvida
uma posição oposta à de Hobsbawm
[15]
Hobsbawm, op.
cit.