Emigração no século XIX

Por: Sílvia Lourenço

Causas

Um dos factos mais importantes do século XIX foi a crescente emigração, nunca antes vista, do velho para o novo mundo.

Ao iniciarmos o nosso estudo deparamo-nos com uma pergunta: o que originou esta emigração em massa? Quais os motivos que provocaram uma das maiores migrações de povos da história?

Devemos mencionar que entre 1815 e 1914 a população europeia duplicou. Este crescimento populacional prende-se com a prática de novas medidas de higiene e à vacinação (nomeadamente antivariólica). Tudo isto vai traduzir-se numa baixa taxa de mortalidade, aumentando progressivamente o crescimento natural.

Este aumento demográfico traduz-se não só na redução de salários, mas também no desemprego crónico e no pauperismo. Ou seja, miséria, penúria e pobreza eram uma constante. Tudo isto, aliado a crises agrícolas, que provocavam a falta e encarecimento dos alimentos, leva à fome em regiões rurais mais populosas.

São muitas e diversas as razões que motivaram a emigração de quase 80 milhões de pessoas. Um dos principais motivos que terá, em nosso parecer, levado à emigração foram as condições económicas. Muitas pessoas eram obrigadas a fugir às más condições de vida do seu país de origem, numa tentativa de sobreviver às dificuldades com que se deparavam. Como tal, verifica-se um maior número de emigrantes entre os mais pobres, uma vez que estes eram forçados a partir quando o seu modo de vida tradicional se tornava difícil ou mesmo impossível. Podemos assim afirmar que as grandes vagas coincidem com crises económicas, do mesmo modo que podemos estabelecer que durante este período existe uma forte uma relação entre a  emigração e a industrialização, sendo a primeira consequência da segunda. A industrialização contribuiu de diversas maneiras para esta ligação. A rápida influência da industrialização em alguns países provocou, entre outros aspectos, a exploração do patronato e as más condições de trabalho, o que reforça a decisão de emigrar.

O segundo contributo da industrialização prende-se com factores técnicos, nomeadamente com os progressos da navegação, que facilitavam a emigração visto que com as os novos meios de comunicação as viagens ficam mais baratas e seguras. Ao mesmo tempo fazem com que a emigração não seja permanente, uma vez que se os emigrantes não se conseguirem adaptar ao novo país podem sempre regressar (mas disso falaremos mais adiante).

Existe um grande número de pessoas que parte à procura de terras mais baratas. Esta é uma das razões que motiva muitos a emigrarem para o continente Americano. Os Estados Unidos têm muita terra, tanta que a lei federal de 1862 (Homestead Act) prevê que quem explorar durante cinco anos oitenta hectares de terra pode, no fim do prazo estabelecido, adquiri-la gratuitamente. Também precisavam de construir os caminhos-de-ferro, ou seja, precisavam de mão-de-obra. Assim sendo, de 1860 a 1870 os Estados Unidos estabeleceram campanhas publicitárias (por exemplo brochuras) e concederam crédito aos novos habitantes como chamariz. Isto parecia o sonho para quem estava na miséria, mas como vamos ver mais adiante, o sonho e a realidade nem sempre caminham lado a lado.

Algumas pessoas também emigravam atraídas pelas riquezas dos novos países, não só da América, mas também de África ou da Austrália. Isto devido à política de colonização das potências Europeias que estavam empenhadas no domínio e exploração de vastas regiões ultramarinas. Queriam aproveitar as áreas coloniais e para isso tinham que as povoar. Para além de incentivar a colonização, alguns governos incentivam mesmo a emigração.

No que concerne aos refugiados ideológicos (quer sejam políticos ou religiosos) estes constituem uma pequena fracção da massa migratória, ao contrário do que muitas pessoas pensam. Este tipo de emigração dá-se sobretudo entre 1849 e 1854.

Estas são as principais causas que levavam as pessoas a saírem da sua terra natal para um pais do qual pouco ou nada conheciam.

 


Principais vagas migratórias

 

 

Já vimos os motivos que levaram as pessoas a emigrar, vejamos agora quem emigrava.

Os emigrantes eram, por norma, jovens adultos (entre os 16 e os 35 anos), maioritariamente do sexo masculino (64% dos emigrantes que entraram nos Estados Unidos entre 1851 e 1910 eram homens) o que não invalida que em alguns países como a Irlanda, o número de mulheres que emigrava fosse também elevado. Os emigrantes tendiam a ser solteiros e emigravam sozinhos. No entanto, existe também uma significativa percentagem de jovens casais com crianças. A grande maioria era motivada e ajudada pelos emigrantes já residentes noutros países, que lhes compravam os bilhetes e os ajudavam a procurar emprego, o que não era fácil visto que a maioria eram trabalhadores não qualificados (antigos agricultores).

A emigração nem sempre era sinónimo de permanência definitiva, dado que uma grande percentagem acabava por regressar a casa. Na maioria das vezes esse regresso já estava marcado à muito tempo. Os emigrantes sonhavam em fazer fortuna e regressar às suas terras natais, ricos e respeitados. Entre 30 a 40% regressava, mas geralmente porque não gostavam do novo mundo ou porque não conseguiam estabelecer-se. Na verdade, o desenvolvimento massivo da emigração incluía cada vez mais uma quantidade considerável de emigrações sazonais. Exemplo disto são as migrações temporárias de trabalhadores italianos e irlandeses que iam fazer colheitas ou construir caminhos-de-ferro.

Uma vez que já mencionamos quem emigra, porque emigra e como emigra, vamos agora tratar o problema da origem e destino destes emigrantes.

É difícil contabilizar com rigor os movimentos populacionais nesta época, porque muitos são feitos à margem do controlo estatístico dos estados e porque não existem registos completamente fiáveis. Podemos afirmar que os imigrantes têm origem sobretudo da Grã-Bretanha, da Itália e da Irlanda.

Os Ingleses tinham sofrido um aumento demográfico, o que juntamente com a situação geográfica, a frota comercial e o espírito de aventura vai favorecer a emigração. São principalmente os camponeses, caseiros e pequenos agricultores que têm um papel preponderante. Os Ingleses iam principalmente para os Estados Unidos mas também para o Canadá. As ilhas Britânicas  fornecem assim o maior contingente de emigrantes, preenchendo 80% do total das emigrações em 1850 e 30% depois de 1880.

A emigração Irlandesa sofre um aumento brutal entre 1846 e 1848. A doença da batata, alimento muito importante na dieta alimentar dos camponeses irlandeses a partir do século XVII, encontra-se na origem deste drama. A subnutrição e as epidemias subsequentes às carências alimentares vão matar cerca de 1,6 milhões de pessoas e provocar uma vaga de emigração sem precedentes (mais de 1,4 milhões de pessoas entre 1846 e 1851). Os países de destino preferidos por estes emigrantes são principalmente os tropicais.

Na Alemanha, a crise da agricultura e o aumento dos preços agrícolas em meados de 1880, os problemas revolucionários que ocorreram em 1830 e mais tarde de 1848 a 1850, juntamente com a crise monetária e financeira dos anos 20, fizeram aumentar o número de emigrantes. Depois de 1890 emigraram sobretudo homens de negócio, empregados de firmas industriais e comerciantes. Os principais países de destino dos Alemães eram os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil e o Chile.

As emigrações dos Belgas, dos Holandeses e dos Suíços tinham pouca importância no conjunto da emigração. Pelo contrário, a Escandinávia tem uma fortíssima emigração no século XIX. Do total de emigração deste país 95% instalam-se nos Estados Unidos, sendo a sua maioria marinheiros, camponeses, lenhadores e operários.

Entre 1801 e 1939 um total de 1,3 milhões de Franceses emigraram. A maioria foi para os países da América Latina (principalmente para o Brasil e para a Argentina), Marrocos e até para a Argélia. A França constitui no entanto um caso à parte. Uma vez que não contava com o enorme aumento populacional que atingiu a totalidade dos países europeus, não sente necessidade de recorrer à emigração. A excepção francesa é ainda um enigma para os historiadores interessados pela transição demográfica. O controlo da taxa de natalidade dá-se aqui muito mais cedo que na restante Europa. Acaba mesmo por contrariar as correntes usuais porque, ao invés de distribuir a sua população através da emigração, torna-se um dos países de destino (apesar de não ser dos mais importantes).

Quanto aos italianos, principalmente os do norte, fugiam aos latifúndios e ao atraso industrial. Entre 1821 e 1930 emigraram quase 2,5 milhões, maioritariamente para os Estados Unidos, para a Argentina e para o Brasil.

Ac Rússia contribui para o fluxo migratório com 4,2 milhões de pessoas entre 1861 e 1914. Da Austro-Hungria partem sobretudo camponeses miseráveis e alguns políticos. Da Polónia parte outra grande onda de emigrantes com destino aos Estados Unidos.

Já falámos um pouco dos países de origem. Vamos agora analisar os países de destino. Começamos por tentar responder a esta questão: porque é que o destino preferencial das populações são os Estados Unidos? Este país aposta na publicidade do sonho americano, do “American Way of Life”. Sendo um país em pleno desenvolvimento, os emigrantes são imprescindíveis para a exploração de vastas áreas quase completamente despovoadas do Oeste e para a construção dos caminhos-de-ferro. Junta-se a necessidade de distribuição da população excedente na Europa à necessidade de população por parte dos Estados Unidos.

O Canadá não é tão importante, mas também é um dos mais escolhidos. Os imigrantes são quase exclusivamente britânicos, com um aumento contínuo. Fixam-se temporariamente pois a maioria abandona este país para os Estados Unidos. O crescimento no Canadá é assegurado pela fecundidade nacional, nomeadamente pela comunidade francesa. Aqui, ao contrário dos Estados Unidos, a população Índia aumenta.

Quanto à África, esta foi insignificativa para a população europeia emigrante. No norte, os franceses tentam fixar-se mas sem resultados. Na África Austral a colonização Europeia era pouco intensa até meados do século XIX. Depois da década de 1860, nomeadamente depois da descoberta do ouro e diamantes dá-se um intenso movimento migratório. O restante do continente não despertou grande interesse. Na Ásia verifica-se uma intensificação da procura no respeitante às matérias-primas, mas o povoamento branco é insignificante e confina-se, basicamente, às cidades.

Em 1914 houve pouca emigração. Isto porque a Primeira Guerra Mundial mudou a economia internacional e os investimentos além mar  são reduzidos. Estas alterações, aliadas às restrições introduzidas na emigração e imigração,  marcam o fim da emigração em massa.

Assim, podemos dizer que de 1800 a 1914 os Europeus povoaram o mundo através das fortes vagas migratórias.


Sonho versus Realidade

 

 

O que levava aqueles homens e mulheres para um mundo completamente novo? Todas as razões podem ser resumidas numa só palavra: esperança. Era este o móbil, aquilo que os levava a abandonar a família, os amigos, o quotidiano. Tinham esperança de encontrar trabalho, dinheiro, liberdade, aquilo que não tinham na terra que os viu nascer. Foi um acto de coragem, principalmente dos primeiros emigrantes que não tinham qualquer apoio quando chegaram ao seu destino.

Começaram a surgir todo o tipo de mitos, desde ruas cobertas de ouro, a histórias de homens pobres que conseguem, fácil e rapidamente, alcançar a ascensão económica e social que todos ambicionavam. Estes mitos do Novo Mundo são construídos a partir de acontecimentos esporádicos. Efectivamente, um ou outro emigrante conseguia o sucesso, mas as histórias comuns eram bem diferentes do “sonho americano”.

Na realidade, a grande maioria dos emigrantes trabalhava em más condições, viviam com dificuldades e o esforço era constante. Tanto no campo como na cidade os imigrantes sofriam com a realidade que se deparava. Afinal, as ruas não eram assim tão diferentes do país de origem (nenhuma estava coberta de ouro) e muito poucos conseguiam o prestígio desejado. Limitavam-se a lutar para recriar um universo familiar semelhante ao que tinham, o que se traduz num reforço da família nuclear. Estas ligações tornam-se poderosas para ajudar a procurar emprego, por exemplo. Existem mesmo grupos étnicos na mão-de-obra fabril, porque cada um tende a procurar os seus compatriotas no local de emprego. Muitas vezes o jogo e a bebida acabavam com os salários, o que acontecia principalmente com os camponeses vindos da Itália, Croácia e Irlanda.

Face aos novos problemas os laços de solidariedade entre imigrantes também se tornaram mais fortes com a criação de associações de beneficência que ajudam os recém chegados a ganhar lugar na nova sociedade.

As catástrofes naturais, casos de subnutrição e a falta de higiene eram uma constante. Face a estes acontecimentos os imigrantes sentiam-se impotentes e desiludidos, daí as elevadas viagens de regresso. Para piorar a situação o  mercado de trabalho começava a revelar saturação. Por exemplo, nos Estados Unidos as últimas terras são concedidas em 1889 no Oklahoma. A partir desta data o imigrante só arranja trabalho como assalariado em indústrias têxteis e siderurgias, o que começava a ser complicado.

Aquilo que os levava para o Novo Mundo fazia parte de um sonho que quando confrontado com a realidade tornava as suas vidas ainda piores que quando tinham saído.


The melting pot

 

 

Nos países de acolhimento dá-se a criação de uma nova ideologia explicada pela metáfora do melting pot. Segundo esta, os diferentes grupos étnicos e sociais que faziam parte das recém formadas sociedades iriam relacionar-se através da fusão harmoniosa das suas características.

É preciso esclarecer dois conceitos fundamentais utilizados no estudo deste fenómeno: aculturação e assimilação. O primeiro define o grupo que apreende a cultura, o vestuário e a linguagem do país de acolhimento. A assimilação define a perda total da identidade original do grupo pela absorção dos novos costumes. É usual existir aculturação sem assimilação, mas muitos factores podem fazer alterar a rapidez destes fenómenos, como a idade que o imigrante tem quando chega ao destino e o facto da emigração ser familiar ou individual. Quando mais velho o emigrante é mais dificilmente se processa a aculturação, assim como quando a família emigra no seu conjunto.

Desde meados do século XIX que os Estados Unidos estão associados ao modelo assimilacionista, criando mesmo programas para “novos americanos”, o que nem sempre resulta. Os países do Novo Mundo transformam-se em autênticos “mosaicos culturais”, nenhuma destas culturas é homogénea, nem conseguiria, pois as influências são tão variadas e tão ricas que não permitem o total assimilacionismo.

Os primeiros imigrantes fundam sociedades semelhantes às europeias. Pegam no estilo de vida, nos costumes, hábitos e religião que trazem da Europa e adaptam-nos à nova experiência. O principal objectivo era criar sociedades que assentassem na liberdade e na igualdade, o que, como se sabe, não passou de mais uma utopia. De qualquer forma, os encontros étnicos e culturais que se dão com a emigração trazem benefícios e criam novas formas de sociedade. Assim, a separação do indivíduo das suas raízes sociais e culturais não traz, em primeira análise, o seu esquecimento e a total absorção dos novos usos e costumes. Surgem as “pequenas Europas” na maioria das cidades de destino. Cria-se um certo pluralismo corporativo, não se pode dizer que existe um único grupo dominante.

Na América Latina a mistura de origens, línguas e raças é muito mais eficaz na perspectiva da ideologia criada nos Estados Unidos (melting pot) que no próprio local de origem. Isto porque as origens nacionais não se individualizam. Esta mistura pode ser provocada pela própria nacionalidade dos emigrantes que se misturam mais facilmente.

Contudo, mesmo entre grupos de emigrantes existem alguns problemas. Podem ser originados por diferenças linguísticas (apesar de não ser o mais significativo), geográficas, políticas ou religiosas e levar à união ou a divisões. Homens e mulheres da mesma nacionalidade podem ter religiões diferentes. Mas estes problemas não têm, nem de perto, a proporção que teriam nos países de origem.

Todos os imigrantes debatem-se com um problema pessoal, que se torna maior que o tipo de problemas citados. Eles têm de optar entre a fidelidade ao país de origem ou a total integração no novo país. Os alemães são os mais determinados em manter identidade dupla, que resolve  em parte o problema de consciência que se deparava.

Nas sociedades multiculturais do Novo Mundo os operários emigrantes começam a construir o seu próprio espaço no seio das cidades: surgem os ghettos. É a total manifestação entre os grupos de emigrados. Cria-se uma polarização entre ricos e pobres, os últimos instalam-se na zona periférica das cidades. No meio destas duas classes surge uma pequena classe média emigrante.

Instituições de emigrantes começaram a fornecer serviços que permitem a integração e informação dos usos e costumes americanos. Os próprios jornais em língua estrangeira tendem a desaparecer. Existe uma forte pressão nos Estados Unidos para que os imigrantes se tornem cidadãos americanos de língua inglesa.

Actualmente as crianças das gerações migratórias do século XIX não têm senão vagas noções das suas diferenças e pouco interesse pelos problemas étnicos. Todas passam pelo mesmo sistema escolar que provoca a uniformização dos seus costumes.

Estas “novas Europas” que se instalam por todo o mundo provocam uma enorme influência com dois tipos diferentes de reacções. Por um lado as outras sociedades tendem a imitá-la, por outro leva em alguns casos a fortes resistências à tradição Europeia.


 Geografia Humana

 

 

Com a emigração verificam-se grandes alterações da geografia humana mundial, sendo esta a consequência mais óbvia do deslocamento populacional do século XIX. Na Europa o que se passou foi uma distribuição da população em excesso. Como já salientámos a baixa mortalidade atingida pela união de vários factores, fez aumentar em flecha os níveis populacionais deste período. A emigração foi uma forma de impedir a saturação total dos recursos naturais.

Em 1870 o crescimento urbano Europeu é o mais elevado a nível mundial, com a maior procura de trabalho, agravada pelo êxodo rural. Décadas mais tarde é nos países de destino do fluxo migratório que o crescimento urbano é maior. As cidades Europeias não tinham como suportar os elevados níveis demográficos, enquanto que nos países de acolhimento havia vastos territórios a explorar.

Só para dar uma ideia do crescimento populacional dos países do Novo Mundo, podemos dizer que a população da América Latina entre 1840 e 1914 quadruplicou. Parte substancial da população da Austrália, Nova Iorque ou Chicago era composta por imigrantes. Estes ocuparam as enormes áreas quase desabitadas mas com grandes potencialidades. De facto, são as zonas com fraca densidade demográfica que mais atraem os imigrantes.

Os emigrantes multiplicam-se in loco de forma notável. Apresentam taxas de natalidade muito superiores às Europeias. A pouca prática anticoncepcional, a inexistência de celibato feminino e o casamento precoce contribuem para este crescimento. As regras impostas na Europa com vista a diminuir a natalidade não são usadas fora do continente. Isto verifica-se sobretudo nos Estados Unidos, onde as taxas de natalidade das grandes cidades são aumentadas pela chegada de emigrantes da  Europa Meridional e Oriental. Mas na Austrália e na Nova Zelândia as taxas de natalidade não são tão elevadas.

Assim, a nível demográfico a vaga de emigrantes foi imprescindível para os dois lados do globo. A população ficou com uma melhor distribuição de forma rápida e sem o aumento excessivo da taxa de mortalidade.


 Aspectos económicos

 

 

O impacto da emigração sobre a economia tem de ser observado sob duas perspectivas: a dos países de origem e a dos países de destino. Ambas sofreram grandes transformações, não ficando imunes ao deslocamento massivo das populações.

As economias dos países do Novo Mundo beneficiaram com êxodo do velho continente. Verifica-se um enorme crescimento nas áreas de destino. Zonas que antes eram mal povoadas são transformadas  são transformadas em importantes áreas produtoras de alimentos e matérias primas, com a preciosa ajuda do investimento Europeu. Os recursos naturais já existiam, mas os novos habitantes vão potenciar esses recursos.

É a mão-de-obra emigrante que constrói os caminhos-de-ferro, sem os quais o desenvolvimento era muito mais complicado e difícil de se realizar (como vemos pelo exemplo europeu. Mas com os emigrantes não vão apenas braços para trabalhar, eles levam também tecnologia e a implantação de culturas nunca antes testadas nos solos do Novo Mundo. Vemos o caso dos Franceses e Húngaros que criam a viticultura na Califórnia, que acaba por resultar muito bem. A emigração de capital e de mão-de-obra interagem assim uma com a outra.

A urbanização surge com o aumento do número de emigrantes. Antes destes povoarem os territórios quase secretos, (ou tornados desertos pelos novos ocupantes) não existiam vestígios de urbanização. Pegando no exemplo americano, que traduz aquilo que se passou noutros pontos afectados pela vaga, pode-se mesmo afirmar que este continente foi construído pela mão dos emigrantes do século XIX. As regiões dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai, brasil sofrem grandes transformações neste período, o desenvolvimento económico é notável. Os Estados Unidos, por exemplo, tornam-se numa força importante de industrialização, acabando por nos dias ser um dos países mais poderosos e mais industrializados.

O caso brasileiro paradigmático. A abolição da escravatura, faz com que a mão-de-obra fosse fundamental para a continuação dos progressos da cultura do café. Quem vai ocupar o lugar dos escravos são os europeus que emigraram em busca de qualidade de vida superior à dos seus países. São sobretudo os mediterrâneos que preenchem a lacuna de mão-de-obra deixada pela abolição da escravatura.

Com os enormes contingentes de emigrantes a Europa vai-se tornar em algumas regiões periférica. Certas zonas de origem vão mesmo estagnar, contudo a emigração era necessária para o desenvolvimento europeu, os níveis elevadíssimos de crescimento populacional atrofiavam as estruturas económicas. A população móvel era crucial, sem ela os valores elevados de desemprego e de fome não iriam parar de aumentar. Criam-se assim possibilidades de investimento e o contínuo progresso industrial, posto em causa pelo desemprego que criava. A Europa ganha com o desenvolvimento do Novo Mundo porque os alimentos e matérias-primas existentes nessas regiões são mais exploradas e exportadas para o velho continente.

Ora, se por um lado em algumas regiões a emigração deixou lacunas, por ser feita em excesso, no geral podemos afirmar que o desenvolvimento da economia do Novo Mundo e o grande número de emigrantes ajudaram, pelo menos a curto prazo, o desenvolvimento europeu. Numa perspectiva mais alargada, podemos verificar que ainda hoje se notam os efeitos. O sangue novo e corajoso que desembarca nas fronteiras além-mar dão um impulso às suas economias que acabam por determinar o atraso europeu relativamente aos Estados Unidos, hoje grande potência mundial.

É com a emigração, não exclusivamente mas de forma concomitante, que nasce a economia internacional. Com as colónias já existiam trocas, mas a emigração dá impulso aos países, que já não sendo colónias europeias, ganham o poder de levantar a voz e comercializar de igual para igual com Europa. Não eram os nativos que o iriam fazer, até porque isso não lhes passava pela cabaça, nem sequer davam importância a estes “pormenores” económicos.


Bibliografia

 

 

 

Atlas histórico da pré-história aos nossos dias

 

BAINES, Dubley, Emigration from Europe, 1815-1930

 

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                                   XIX century” in Population and Development Review

 

HOBSBAWM, Eric, “Homens em Movimento”, Era do Capital

 

LÉON, Pierre, História Económica e Social do Mundo

 

REMOND, René, Introdução à História do nosso tempo

 

ROCHA-TRINDADE, Sociologia das migrações